sábado, 21 de outubro de 2017

Prendada

Bordei seu nome em ponto cruz
Na intenção de findar o meu calvário
Guardei o paninho numa caixa
Esborrifei com o seu perfume

Quis dar ao fim uma borda
Término, limite, contenção
Na esperança de que tenha acabado
A sua participação especial na minha vida

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Pós

E aí você se lembra
Que já tinha vida
Que já tinha risos
Que já tinha planos

E o sol a abraça
E já havia sardas
E já havia marcas
E já havia pele

E o vento embala
Ainda tem sonhos
Ainda tamanhos
Ainda imperando

E tem histórias de sobrevivência:
Já passou por isso

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ido

É aquela dor que a terra sente
Quando lhe arrancam a árvore com raiz e tudo
É o barranco chorando
O naco que caiu no rio

É menstruar antes de completos seis meses
E o ovo quebrar sem que o conteúdo se mova
Saudade a gente tem e é normal
Difícil é lidar com ela

Mudança

Vejo mudanças acontecendo
Astros em realinhamento
As águas dentro de mim se movendo
Olho e em silêncio tento receber a mensagem
(O que será que Deus está aprontando?)

sábado, 7 de outubro de 2017

Praga

Que se existe mais um bocadinho de vida pra nós sermos "nós"
Se é tão bom pra você como é pra mim
Um anjinho danado vai espremer seu coração de saudade
E você só vai dormir daquele jeito de novo nos meus braços

Que se o que era possível ser bom já foi
E o espaço é de não caber
A atenção curta, a vontade pouca, a distração muita
O meu querer vai desbotar igual roupa botada pra quarar
O meu olhar desviado pra outro olhar
E a vida se encarregará do resto

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Longe

Você se foi
Mais rápido do que queria
Mais lento do que eu desejava

E eu senti pressenti chorei
Muito antes da partida
Que vida...

Porque antes eu saber a verdade
Você já tinha se desprendido
De nós

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cláudio

Passamos bem uns três dias examinando a boca na frente do espelho. Nem um pequeninho, verdinho pra contar história. Nada na língua, nada nas bochechas. Eu esperava um criadouro de anfíbios em miniatura.
A classe toda já tinha se entediado de nos ver, sentados na escada, esperando os pais, ele no degrau de cima com os joelhos afastados e eu no de baixo, escutando e acreditando nas declarações de amor dele. Afinal de contas, eu era adorável mesmo, a tia Yara tinha dito.
Exigiram um selinho como prova do namoro, e achamos uma boa ideia. Não sentimos nada, óbvio, mas a reação estrondosa e a risada abafada quando a professora voltou pra classe eu não esqueço.
Numa manhã, resolvemos conversar: "E aí! Alguma coisa?" "Não. E vc?" "Também não."
Fiquei aliviada. "Demos sorte. Todo mundo sabe que criança não pode beijar porque dá sapinho na boca."
Eu tinha 5 anos. Ele, 7. Chorou de lágrima quando me mudei de Santos pra Limeira, por causa do emprego do meu pai.